Rosh Hashaná
Nas nossas vidas
pessoais, fomos gentis? Fomos suficientemente generosos? Agimos mais por medo
ou por amor? Tratamos as pessoas que nos cercam com mais compaixão ou indiferença?
Vivemos de acordo com os nossos princípios éticos ou optamos por seguir um
caminho menos trabalhoso? Cabe a cada um refletir sobre o que fez no ano
judaico de 5781 e reagir da forma que julgar mais adequada. No entanto, se
olharmos para o nosso funcionamento enquanto sociedade, é possível tirar
algumas conclusões.
O mundo vem
atravessando um retrocesso em frentes diversas —que não é novo, mas que
tampouco dá sinais de enfraquecer. No Brasil e no exterior, manifestações racistas e antissemitas continuam a se
multiplicar, endossadas implícita ou explicitamente por lideranças
que se julgam na posição de reescrever a história de acordo com suas próprias
convicções políticas; que se esforçam, em outras palavras, para transformar
fatos comprovados em questão de interpretação e tornar essa prática aceitável.
Segundo um
levantamento da antropóloga Adriana Dias, as células neonazistas no Brasil saltaram de
75, em 2015, para 530, em maio de 2021. Outro monitoramento, elaborado pela ONG
Safernet, mostrou uma explosão de denúncias sobre conteúdos de apologia ao
nazismo nas redes: casos desse tipo foram de 1.282 (em 2015) a 9.004 (em 2020).
São ocorrências que nos forçam a nivelar por baixo, reafirmando valores básicos —como a tolerância, o pluralismo, o respeito à democracia, ao diálogo e à diversidade— de uma maneira que soaria absurda dez anos atrás. A estratégia dos odiosos parece ser a insistência, e ela é bastante eficaz: passados 76 anos desde a libertação de Auschwitz, é exaustivo repetir ideias que deveriam ser consensuais; diante disso, o cinismo e a apatia podem parecer atalhos tentadores.
E, no entanto, o
Rosh Hashaná nos lembra que tudo o que construímos, para o bem ou para o mal, é
fruto de escolhas. Nossas vidas, as comunidades de que fazemos parte, a
sociedade brasileira, o mundo em que vivemos: não se trata de natureza, mas de
artifício. Cada pedaço da realidade existe porque foi criado pela ação ou
inação de alguém, e poderia, portanto, ter sido criado de um modo diferente.
Nada é permanente ou imutável.
Quando formos
confrontados com uma sensação de impotência ou cansaço, é importante constatar
que, enquanto estivermos vivos, seremos agentes de mudança, e que não existe
futuro para quem não acredita no futuro. Na perspectiva judaica, o mundo não
foi criado apenas uma vez, mas é recriado a cada ano — e, com isso, ganhamos uma
nova chance. O Rosh Hashaná é a celebração dessa possibilidade.
Diante da
conjuntura atual, a tristeza é inevitável, mas não muda nada: quando ninguém
acredita que uma solução melhor é possível, aqueles que se beneficiam da manutenção
do status quo permanecem protegidos. Ser otimista não significa ignorar os
problemas que se acumulam à nossa volta de forma cada vez mais inquietante, mas
seguir agindo apesar deles e aperfeiçoar a nossa capacidade de pensar saídas. A
história da nossa comunidade mostra que a perseverança é mais produtiva do que
qualquer noção estagnada de vitória ou derrota.
Nesta segunda e
terça-feira (6 e 7 de setembro), quando entrarmos no ano de 5782 — data que
coincide com a Independência do Brasil, o que tem uma carga simbólica
evidente —, é fundamental lembrar que o futuro é uma construção coletiva, e que
cada um de nós, certamente, pode contribuir para a criação de um mundo mais
justo e respeitoso. Basta prestar atenção.

0 Comments:
Post a Comment
Note: Only a member of this blog may post a comment.
<< Home