O fiel jardineiro
- Ricardo Barbosa
A
história bíblica começa e termina com um jardim.
Começa com o jardim do Éden, a
boa e perfeita criação de Deus, e termina com um jardim/cidade, a nova criação,
uma cidade que desce do céu, perfeita em todas as suas formas. O primeiro
jardim foi corrompido pela desobediência e pelo pecado. O segundo jardim é a
consumação de todo o propósito redentor de Deus.
Essa é uma imagem que precisa ser preservada na mente cristã.
Tudo o que Deus
fez na primeira criação era bom e perfeito, e tudo o que Deus tem feito e fará
também é bom e perfeito, e será, no fim de tudo, realizado em sua plenitude. No
entanto, entre o Éden e a Nova Jerusalém, o jardim de Deus sofre com as
consequências da queda. Ervas daninhas crescem, entulhos são jogados no jardim,
a falta de cuidado vai lentamente roubando sua beleza. O que não podemos
esquecer é que, embaixo do entulho e do mato que cresceu, ainda há um jardim, e
ele continua sendo belo.
É isso que acontece com tudo na vida: amizades, casamento, filhos, igreja.
Facilmente perdemos a capacidade de ver a beleza porque o lixo é a realidade
mais visível. No entanto, como disse G. K. Chesterton: “O mundo nunca sofrerá
com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta da capacidade de se
maravilhar”. A imaginação é o recurso da alma humana de nos maravilhar com a
beleza quando o que vemos é apenas mato e entulhos. Um casamento pode entrar
num período de desencantamento porque o que os cônjuges veem é apenas a sujeira
sobre o jardim, e a sujeira sempre atrai mais sujeira. A imaginação é o que nos
permite ver o que não é visível, mas é real. O jardim não deixou de existir,
sua beleza não desapareceu, apenas fomos tomados por um feio cenário que passou
a dominar a realidade. O que esse casal necessita é do trabalho de um
experiente e cuidadoso jardineiro.
O trabalho de limpar, podar, adubar, requer paciência e habilidade.
Na minha
adolescência, tínhamos um jardim na frente de nossa casa e, bem no meio dele,
uma belíssima roseira. Lembro-me de minha mãe, com a tesoura nas mãos, podando
a roseira. Era um trabalho duro – a roseira sangrava, os galhos ficavam feios,
depois vinha o adubo, a água e, pouco tempo depois, começavam a surgir novos
brotos e, em seguida, as rosas com seu perfume suave, cores vivas, pétalas
firmes, trazendo a beleza de volta para o jardim.
Nem sempre gostamos do trabalho do fiel Jardineiro.
Ele não poupa a poda. Ela
nos fere e nos faz sangrar, mas é o único caminho para o jardim voltar a ser
aquilo para o qual o Criador o criou. As ervas daninhas e os entulhos vão sendo
amontoados no jardim pelo nosso descuido, pela cultura que nos enche de
bobagens, pela mentira e sedução do engano. Quando o jardim começa a sofrer com
a falta de cuidado, talvez por não encontrarmos tempo, por achar que outras
coisas são mais importantes naquele momento, outros começam a usá-lo como
lixeira. Começamos a reclamar da falta de cuidado do nosso jardim e a admirar o
jardim bem cuidado do vizinho. É aqui que mora o perigo.
Tudo o que Deus faz é bom.
As coisas boas de Deus não têm prazo de validade,
permanecem sempre boas. O pecado corrompe, suja e torna o mundo bom de Deus num
mundo tomado por ervas daninhas e entulhos.
Permita que o fiel Jardineiro entre
no seu jardim com sua tesoura, enxada e ancinho, e faça seu trabalho, trazendo
de volta a beleza do jardim escondido.
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