Espírito quebrantado e coração contrito
.
- pr. Ricardo Barbosa
O Salmo 51 é uma das belas pérolas do saltério. Nele
encontramos o rei Davi expressando de forma sincera a dura realidade do pecado
e suas consequências, bem como a beleza da graça misericordiosa de Deus. Não
consigo imaginar a vida sem esse salmo. O
contexto é bem conhecido: Davi adulterou, assassinou um homem, destruiu uma
família, comprometeu um reino. O pecado nunca tem apenas implicações
individuais.
O salmo termina com o reconhecimento de que o único
sacrifício de que Deus se agrada é um espírito quebrantado e um coração
contrito, diferente do sentimento de autoindulgência tão comum em nossos dias.
Esse “sacrifício” agradável a Deus é demonstrado ao longo dessa belíssima
oração. Um espírito quebrantado e um coração contrito nos levam a uma
compreensão honesta sobre quem somos, basta considerar os pronomes: “Minhas transgressões”,
“minha iniquidade”,
“meu pecado”,
“eu nasci
na iniquidade”, “eu pequei contra ti”, “eu fiz o que é mal”. Por causa desse
coração, Davi assume seu pecado. Não procura se autojustificar dizendo: “Foi
consensual”, “não consegui resistir”, “estava me sentindo muito só”. Ele não
racionaliza, não se coloca na posição de vítima. Ter um coração assim nos torna
mais realistas e nos ajuda a parar de usar a vida de outras pessoas, de jogar
com os sentimentos dos outros e nossos.
Possuir um espírito quebrantado e um coração contrito nos leva também a
reconhecer que todo pecado ofende, primeiramente, a Deus. “Pequei contra ti”,
“fiz o que é mal perante os teus olhos”, “esconde o rosto dos meus pecados”,
“não me repulses da tua presença”, “não me retires o teu Espírito”. Antes de
ofender Bateseba, destruir sua família e corromper a si mesmo, Davi ofendeu a
Deus. Sem esse coração, somos facilmente levados a reconhecer que o problema
maior do pecado é a quebra de nossa vida tranquila e controlada e, para isso,
não precisamos de quebrantamento, contrição, arrependimento e confissão,
precisamos apenas encontrar um meio de recuperar nossa normalidade. Quando o
pecado é visto como quebra de minha tranquilidade, passa a ser tratado como
enfermidade, não como ofensa a Deus. Deixo de ser responsável pelos meus atos e
torno-me vítima.
Davi não apenas reconhece o que fez, mas também procura dar nome ao que
aconteceu: “Transgressão”, “iniquidade”, “pecado”. Cada uma dessas palavras tem
peso e traduz de forma clara o significado de nossas ações. Ele adulterou,
arquitetou a morte do marido de Bateseba, mentiu, usou seu poder de rei para
corromper e atender os caprichos de suas paixões. Ele sabia que Deus abomina o
adultério, condena o assassinato, não tolera a falsidade. Por isso ele dá nome
ao que fez. Isso ajuda a ter mais clareza sobre a condição humana.
Por outro lado, um espírito
quebrantado e um coração contrito nos
conduzem a uma melhor compreensão de Deus e de sua graça. Davi reconhece a
compaixão de Deus, sua bondade, misericórdia, amor, justiça e santidade. Quando
Moisés pediu para ver a glória de Deus: “Mostra-me a sua glória” (Ex 33.18),
Deus respondeu: “Farei passar toda a minha bondade diante de ti [...] terei
misericórdia e compaixão”. Ele não permanece preso à sua culpa. Sua visão de
Deus o leva a provar de sua bondade e misericórdia.
Isso tudo o levou a uma profunda libertação e transformação. Ele clama:
“Purifica-me”, “lava-me”, “faze-me ouvir júbilo e alegria”, “cria em mim um
coração puro”, “renova dentro de mim um espírito inabalável”, “apaga as minhas
transgressões”, “restitui-me a alegria da salvação”, “sustenta-me com um
espírito voluntário”, “abre meus lábios”.
Quando há arrependimento e confissão
sinceros em nós, o perdão divino apaga a culpa e nos leva a viver uma nova
realidade.
Fonte:
https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/420/espirito-quebrantado-e-coracao-contrito
.

0 Comments:
Post a Comment
Note: Only a member of this blog may post a comment.
<< Home