July 23, 2026

Espírito quebrantado e coração contrito

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- pr. Ricardo Barbosa

O Salmo 51 é uma das belas pérolas do saltério. Nele encontramos o rei Davi expressando de forma sincera a dura realidade do pecado e suas consequências, bem como a beleza da graça misericordiosa de Deus. Não consigo imaginar a vida sem esse salmo. O contexto é bem conhecido: Davi adulterou, assassinou um homem, destruiu uma família, comprometeu um reino. O pecado nunca tem apenas implicações individuais.

O salmo termina com o reconhecimento de que o único sacrifício de que Deus se agrada é um espírito quebrantado e um coração contrito, diferente do sentimento de autoindulgência tão comum em nossos dias. Esse “sacrifício” agradável a Deus é demonstrado ao longo dessa belíssima oração. Um espírito quebrantado e um coração contrito nos levam a uma compreensão honesta sobre quem somos, basta considerar os pronomes: “Minhas transgressões”, “minha iniquidade”, “meu pecado”, “eu nasci na iniquidade”, “eu pequei contra ti”, “eu fiz o que é mal”. Por causa desse coração, Davi assume seu pecado. Não procura se autojustificar dizendo: “Foi consensual”, “não consegui resistir”, “estava me sentindo muito só”. Ele não racionaliza, não se coloca na posição de vítima. Ter um coração assim nos torna mais realistas e nos ajuda a parar de usar a vida de outras pessoas, de jogar com os sentimentos dos outros e nossos.

Possuir um espírito quebrantado e um coração contrito nos leva também a reconhecer que todo pecado ofende, primeiramente, a Deus. “Pequei contra ti”, “fiz o que é mal perante os teus olhos”, “esconde o rosto dos meus pecados”, “não me repulses da tua presença”, “não me retires o teu Espírito”. Antes de ofender Bateseba, destruir sua família e corromper a si mesmo, Davi ofendeu a Deus. Sem esse coração, somos facilmente levados a reconhecer que o problema maior do pecado é a quebra de nossa vida tranquila e controlada e, para isso, não precisamos de quebrantamento, contrição, arrependimento e confissão, precisamos apenas encontrar um meio de recuperar nossa normalidade. Quando o pecado é visto como quebra de minha tranquilidade, passa a ser tratado como enfermidade, não como ofensa a Deus. Deixo de ser responsável pelos meus atos e torno-me vítima.

Davi não apenas reconhece o que fez, mas também procura dar nome ao que aconteceu: “Transgressão”, “iniquidade”, “pecado”. Cada uma dessas palavras tem peso e traduz de forma clara o significado de nossas ações. Ele adulterou, arquitetou a morte do marido de Bateseba, mentiu, usou seu poder de rei para corromper e atender os caprichos de suas paixões. Ele sabia que Deus abomina o adultério, condena o assassinato, não tolera a falsidade. Por isso ele dá nome ao que fez. Isso ajuda a ter mais clareza sobre a condição humana.

Por outro lado, um espírito quebrantado e um coração contrito nos conduzem a uma melhor compreensão de Deus e de sua graça. Davi reconhece a compaixão de Deus, sua bondade, misericórdia, amor, justiça e santidade. Quando Moisés pediu para ver a glória de Deus: “Mostra-me a sua glória” (Ex 33.18), Deus respondeu: “Farei passar toda a minha bondade diante de ti [...] terei misericórdia e compaixão”. Ele não permanece preso à sua culpa. Sua visão de Deus o leva a provar de sua bondade e misericórdia.

Isso tudo o levou a uma profunda libertação e transformação. Ele clama: “Purifica-me”, “lava-me”, “faze-me ouvir júbilo e alegria”, “cria em mim um coração puro”, “renova dentro de mim um espírito inabalável”, “apaga as minhas transgressões”, “restitui-me a alegria da salvação”, “sustenta-me com um espírito voluntário”, “abre meus lábios”. 

Quando há arrependimento e confissão sinceros em nós, o perdão divino apaga a culpa e nos leva a viver uma nova realidade.

Fonte: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/420/espirito-quebrantado-e-coracao-contrito
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