March 16, 2026

Amizade espiritual

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CONGRUÊNCIA, CONSISTÊNCIA E CONSTÂNCIA

No dia 15 de março de 2026, domingo passado, nosso querido professor James MacIntosh Houston (1922-2026) entrou no descanso eterno dos santos, encerrando sua longa jornada entre nós.

- pr. Ricardo Barbosa

Filho de missionários, passou boa parte de sua infância na Espanha. Fez seu doutorado em geografia pela Universidade de Edimburgo e seguiu sua carreira acadêmica na Universidade de Oxford onde foi professor e tutor por vinte e cinco anos. Na segunda metade dos anos 60, ele recebeu o convite para começar uma escola de teologia em Vancouver, Canadá. Em 1968, junto com seus amigos, realizaram o primeiro curso de verão e, em 1970 ele mudou com sua família para Vancouver. Foi um dos fundadores, professor e o primeiro diretor do então recém-criado Regent College, com uma visão revolucionária de estabelecer uma escola de teologia para a formação de profissionais cristãos dentro do campus da Universidade de British Columbia. Depois de alguns anos ensinando temas relacionados a teologia da criação, iniciou uma nova disciplina voltada para teologia espiritual, atuando como mentor espiritual de muitos alunos.

Em 1991, mudei com minha família para Vancouver com a finalidade de estudar no Regent College, incentivado pelo meu querido amigo Paul Freston que, nos anos 80, havia feito seus estudos teológicos naquela escola. Cheguei em agosto e, em setembro daquele ano, tive meu primeiro encontro pessoal com o professor Houston. Entrei em sua sala levando comigo alguns questionamentos próprios de estudantes de teologia. Ele me ouviu pacientemente, fez algumas poucas considerações, mas logo foi direto ao que mais importava a ele: sua compreensão de que a teologia nunca deve ser tratada como uma ciência meramente acadêmica. Ele me propôs um caminho dizendo: - se você veio aqui para conquistar mais um diploma, siga com seus estudos, leituras e trabalhos e você o terá, mas se veio aqui para ser transformado, é para isso que a teologia serve, então eu posso te ajudar. Pense nisto e na semana que vem me diga o que decidiu. Decidi pela 2a. opção. Isso mudou minha vida, ministério e a forma de compreender o significado da teologia.

Na semana seguinte, o primeiro trabalho que ele me passou, não foi nenhuma leitura acadêmica, ele me pediu para que escrevesse minha biografia, levando em conta meus relacionamentos, sentimentos e afetos, bons ou ruins experimentados desde minha infância. Quando terminei, iniciamos uma conversa que durou alguns anos. Ele, com bondade, compaixão e profunda sabedoria, entrou na minha vida e história e foi onde experimentei uma verdadeira transformação. As conversas semanais nos aproximaram. Retornei em 1993 e, de 1994 a 2017 ele veio ao Brasil quase todos os anos, com exceção do período em que precisou cuidar de sua esposa, Rita. Nestes anos realizamos vários cursos, seminários, conferências, aqui em Brasília e em outras cidades, porém, o mais importante foram os longos períodos de conversas, tanto aqui como nas visitas que fiz a ele em Vancouver.

Dr. Houston foi um acadêmico com uma impressionante formação. Além de geógrafo, ele dominava outras ciências como: filosofia, história, literatura clássica, sociologia, psicologia e, claro, teologia, entre outras. Não só conhecia, mas relacionava todas elas em torno da sua fé em Cristo. Isso fez dele um sábio, mais do que um acadêmico. Sua capacidade de compreender a alma humana era única. Sua relação com seus alunos era profundamente pessoal. Ele dizia que sua relação com os alunos não terminava com a formatura, por esta razão gostava de visitá-los, e vinha ao Brasil com frequência.

Suas conversas sempre nos ajudavam a compreender melhor nossa história e relacionamentos. Foi com ele que compreendi o significado da redenção de nossas memórias. Para ele, a fé cristã e o conhecimento teológico precisavam, sempre, promover relacionamentos. Ele e sua esposa cultivaram um coração hospitaleiro. Sua casa estava sempre aberta para os alunos. Sua filha me disse certa vez que eles nunca sabiam se ele chegaria para o jantar com 3 ou 5 alunos, às vezes, mais. Ele, enquanto falava, fosse numa aula ou no culto de uma igreja, observava sua audiência e quando terminava procurava conversar com as pessoas que ele percebia terem sido tocadas por alguma coisa que falou.

Até o fim de sua vida, enquanto teve condições físicas, atendeu inúmeras pessoas de várias partes do mundo, escreveu e organizou livros e estudava, sempre. Certa vez, em sua casa, já com seus 90 e poucos anos, vi sua agenda ao lado do telefone, estava com a semana completamente cheia de encontros e conversas. Ele dizia que, desde que se tornou um discípulo de Cristo, nunca parou de estudar e explorar novas fronteiras do conhecimento. Um discípulo de Cristo nunca para de aprender e servir. Costumava dizer que aposentadoria não era uma palavra cristã.

Poderia seguir discorrendo sobre conversas, conselhos, visão sobre educação teológica e tantas outras coisas, mas a leitura dos seus livros, junto com os vídeos e áudios disponíveis nas plataformas, irão nos ajudar a compreender a grandeza deste santo.

Sentirei muito sua ausência, mas carregarei comigo a profunda gratidão por tudo que aprendi e pela amizade que marcou toda minha família. 

A Deus toda a glória.

Fonte: https://www.ultimato.com.br/conteudo/um-tributo-a-james-houston-1922-2026
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