Liderança com propósito
.- Jorge Henrique Barro
Na igreja, essa crise assume contornos ainda mais delicados. Muitas comunidades passaram a confundir autoridade espiritual com visibilidade, unção com performance e fidelidade com alinhamento ideológico. No campo político, algo semelhante ocorre: líderes são elevados à condição de salvadores, enquanto instituições, processos coletivos e responsabilidades compartilhadas são enfraquecidos. Em ambos os casos, o resultado costuma ser o mesmo: dependência emocional, frustração recorrente e ciclos de idolatria e queda.
Criticar esses modelos, no entanto, não significa negar a necessidade da liderança. Comunidades não se sustentam sem referências, direção e cuidado. O problema não está na existência de líderes, mas na concentração excessiva de poder, na personalização da autoridade e na ideia de que tudo depende de uma figura excepcional. No testemunho bíblico, a liderança nunca é abolida, mas distribuída, limitada e colocada a serviço da vida comum.
O caminho para enfrentar essa crise não passa pela busca de líderes mais fortes, mais duros ou mais midiáticos. Pelo contrário, exige uma revisão profunda do imaginário que sustenta nossas expectativas. Liderança saudável nasce do caráter, não da plataforma. Ela se forma no chão da vida comunitária, onde há proximidade, prestação de contas e espaço para a fragilidade humana. Liderar, nesse sentido, não é dominar nem controlar, mas servir, sustentar e orientar.
Além disso, é urgente recuperar uma liderança encarnada, pastoral e relacional. Quando líderes se tornam apenas comentaristas culturais ou porta-vozes de disputas ideológicas, perdem a capacidade de cuidar de pessoas concretas. A autoridade que transforma não é a que vence debates, mas a que forma gente. Ela não se impõe, é reconhecida na coerência entre palavra, prática e caminho percorrido.
Outro elemento essencial é compreender que liderança cristã existe para formar comunidades maduras, não para substituí-las. Líderes saudáveis não criam dependência, criam discernimento. Seu êxito não está em se tornarem indispensáveis, mas em capacitar a comunidade a caminhar com responsabilidade, fé e autonomia espiritual. Onde isso acontece, a liderança deixa de ser um fardo insustentável ou um risco permanente e passa a ser um dom compartilhado.
Se queremos superar os modelos adoecidos que hoje dominam tanto o espaço eclesial quanto o político, precisamos reaprender a reconhecer e formar outro tipo de liderança. Não perfeita, não heroica, mas fiel.
Em 1o. lugar, trata-se de uma liderança cuja autoridade nasce da coerência, não do espetáculo. São líderes cuja vida sustenta suas palavras, e não o contrário. Eles não precisam estar sempre em evidência nem vencer todas as disputas, porque sua legitimidade não depende da performance, mas da confiança construída no tempo.
Em 2o. lugar, é uma liderança que forma pessoas, em vez de criar dependência. Esses líderes compartilham poder, informação e responsabilidade. Trabalham conscientemente para que outros cresçam, decidam e assumam tarefas. Seu sucesso não é medido pelo número de seguidores leais, mas pela maturidade das comunidades e instituições que ajudam a fortalecer.
Em 3o. lugar, trata-se de uma liderança que reconhece limites e valoriza a prestação de contas. Líderes saudáveis não governam sozinhos nem se colocam acima da correção. Eles compreendem que estruturas de escuta, avaliação e responsabilização não enfraquecem a liderança, mas a protegem, tanto de abusos quanto de idealizações perigosas.
Em 4o. lugar, essa liderança permanece enraizada na realidade concreta das pessoas. Em vez de operar apenas no plano das ideias, das guerras simbólicas ou das narrativas abstratas, ela se deixa afetar pelas histórias reais, pelos sofrimentos cotidianos e pelas contradições da vida comum. Decide não apenas para vencer debates, mas para cuidar de gente concreta.
Por fim, talvez a marca mais decisiva seja a consciência clara de que líderes não ocupam o lugar do absoluto. Eles sabem que sua função é provisória, limitada e delegada. Não se apresentam como salvadores, nem aceitam ser tratados como tais. Apontam para além de si mesmos, para princípios, valores, instituições e, no caso da fé cristã, para Cristo. Essa consciência protege o líder da idolatria e a comunidade do colapso quando ele falha.
Em tempos de crise, o caminho não é concentrar poder, mas redistribuir responsabilidade. Não é eliminar a liderança, mas purificá-la. Não é exaltar líderes, mas amadurecer o corpo. Onde isso acontece, a liderança recupera sua vocação original: servir à vida, sustentar comunidades e apontar caminhos, sem jamais ocupar o lugar que não lhe pertence.











