.
- pr. Ricardo Barbosa
A leitura do livro do Apocalipse sempre me leva a reconhecer a importância de
um centro na longa jornada cristã, principalmente num tempo e numa cultura que
nos envolvem com tanta distração.
A ausência de um centro nos torna pessoas
vulneráveis a todo tipo de manipulação e de emoções confusas e conflitantes.
Caminhamos por espasmos, colecionando experiências fragmentadas, sem conseguir
integrá-las em torno de um único centro.
Em sua primeira visão, João ouve uma voz e, ao voltar-se para ver quem falava,
vê sete candeeiros de ouro e, no meio deles, Jesus. Ele vê Jesus bem no meio da igreja – não ao lado, acima, mas no meio. Jesus está sempre no centro da igreja.
Numa outra visão, João vê um livro, todo
selado, escrito por dentro e por fora, o livro que contém todo o propósito de
Deus para a história. Quando percebe que não há ninguém digno de abrir o livro
nem desatar os selos, ele chora muito. É consolado com a visão do trono,
porque, no meio dele, João vê Jesus, o
Cordeiro de Deus.
No centro do trono do Universo, está o Cordeiro que foi
morto, mas vive e reina eternamente. O único que é digno de abrir o livro. No
centro da história não vemos os poderosos, mas Jesus, bem no centro do trono eterno. Todo o livro do Apocalipse
nos ajuda a cultivar uma vida centrada, porque no meio, bem no meio de tudo,
encontramos Jesus. Ele é o princípio,
o meio e o fim de todas as coisas.
A vida centrada nos ajuda a preservar um
sentido e uma identidade para as diferentes experiências que vivemos. Ela integra tudo aquilo que o pecado
corrompeu e fragmentou.
Uma afirmação do apóstolo Paulo que nos ajuda a
compreender o valor de uma vida centrada está na sua carta aos discípulos de
Jesus na cidade de Filipos, quando diz: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo,
e o morrer é lucro” (Fp 1.21).
Para muitos, vida e morte são realidades
distintas, de certa forma opostas; a morte significa a perda de tudo aquilo que
experimentamos na vida: amigos, família, prazeres, lugares. A morte implica
descontinuidade e, por isso, é tão dolorosa. No entanto, para Paulo, em virtude
da vida centrada em Cristo, a morte não implica descontinuidade, mas
continuidade, porque, uma vez que para ele “o viver é Cristo”, toda a sua vida gira em torno de um centro:
Cristo.
Se o viver é Cristo e a morte é a vida com Cristo em sua plenitude,
morrer não é perder, mas ganhar; ou seja, é lucro. O que ganhamos com a morte?
Mais, muito mais daquilo que já temos: Cristo.
Quando Cristo se torna o Centro de todas as coisas – vida, relacionamentos,
igreja, história, política, economia, sexualidade –, tudo é integrado em torno
de um Centro, e passamos a viver uma vida concêntrica e não excêntrica.
Thomas
Kelly (1893-1941) foi um missionário e educador quaker que, preocupado com a
vida agitada que nos torna ocupados demais para cultivar relacionamentos
profundos e verdadeiros, escreveu, em seu livro Um Testamento de Devoção, um capítulo
dedicado à “Simplificação da Vida”. Para ele, nosso problema não é externo, mas
interno.
A vida sobrecarregada e estressante reflete a falta de integração
interior. Para experimentar a vida abundante que Cristo nos oferece, uma vida
frutífera de serenidade e paz, ela precisa ser vivida a partir de um “Centro”. Não simplificamos a vida procurando reorganizar nossas agendas, mas recuperando
o Centro.
Fonte: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/418/uma-vida-centrada
.